O botica cria um novo perfume

(Via: We Heart It)“Não sou boticário, mas acho que todos nós, no fundo, bem lá no fundo, não fomos concebidos. Na verdade fomos criados na essência, no esconderijo de um botica meio pirado. As formulações nunca são muito precisas. Os resultados às vezes saem pra lá de excêntricos. Se o universo é uma ilha, cada um de nós é como se fosse um vidrinho de perfume ambulante. Andamos e borrifamos nossa essência, andamos e deixamos nosso rastro. Literalmente! Por todos os lados.

A leveza da tua essência, a marca forte do teu gênio, a sutileza presente em cada arremate. Um perfume tão bom que mais parece um sorriso. Um sorriso bem grande. E um olhar que envolve. Envolve demais. É a arma secreta de uma agência de publicidade.

O botica que fez a tua fórmula, ele é um cara meio sádico. Ele deve sentir-se muito eufórico quando você deixa essa tua marca: Leve ao primeiro borrifado e mais forte à medida que temos mais contato. É uma proposta muito ousada. É como um vício. Temos que borrifar de leve essa mistura perigosa. Em que temos uma fragrância dual: envolvente e ao mesmo tempo arisca.

O botica observa tudo de longe. Cada pessoa deixa sua marca onde vai, você vai além, marca o pensamento. Todos ficam querendo saber como ficamos tão encantados com essa fragrância tão rara que vai entrando pelos poros. Faz rir, faz querer silêncio, faz querer olhar para o vazio.

Olhar. Contemplar a vida com esse perfume que tem a essência de uma bela garota. O perfume que cheira a sonho. Que cheira a um leve toque de solidão. Um perfume que faz com que tenhamos um pouquinho de vertigem, mas acima de tudo uma essência que faz com que tenhamos a miragem de uma bela pessoa.

Sim, porque tão rara assim, é melhor fazer com que todo mundo acredite que você é realmente um perfume. O mundo pode achar que você é só uma miragem ou eu posso achar que você é uma miragem real. Não importa. Fragrância. Delírio. Encantamento. Eu não sei.

Na dúvida, você.”

Com adaptações.

J.O.

O amor acena ao te ver

Todos vêem, mas ninguém observa. As faces memoráveis me causam. Visto meus olhos com admiração, banho minha opinião com sabedoria e por fim, decifro sua imagem como pequenas peças de quebra cabeça.

Ela olha em volta, atravessa a rua. Desvio meus olhos, mas ela sabe que eu a vi. Volto minha atenção a ela e a mesma simplesmente acena. Meu Deus, isso dói.

Passo a me manter de pé, diante da dúvida, vou ou não vou? Narro meus passos, premeditando o acontecido, homens gostam de saber o que fazer, eu nunca sei.

Ao conhecer-te como criança, já via uma mulher. Nada mudou. A admiração era obsessiva, mas nunca demonstrei. Seu jeito, seu olhar, o andar tímido e perspicaz. Persevero até hoje um modo de tê-la em sua forma nua e presente.

Desejo a matéria que compõe seus versos, as palavras que circulam sua essência, perceptível? Talvez. Repasse seus olhos sobre minha carne, seu ego se faz em total veneração. Acredite ou não, o amor acena ao te ver. Idiota e estranho esse tal amor, mas verdadeiro.

Componho então este despejo em ti, finalizando meu objetivo em teu sorriso. Mas não, não serei eu o dono de tal prazer. Aceito de bom grado tal fato. Aceito e sigo em frente sem doer, pois as lembranças me trarão imagens fotográficas de você.

A. Ribeiro

Hora de Ser ir

O avião estava atrasado e enquanto não chegava, minha cabeça estava em algum lugar entre as últimas coisas que disse à ele e a mala desajeitada que fiz. Pode ter parecido rude da minha parte, mas nós dois sabíamos que tínhamos nos perdido em alguma parte do caminho. No final das contas, estávamos vagando sozinhos há algum tempo.

Quando a vida toma esse rumo, ou melhor troca o percurso, acredito que a gente deve fazer o mesmo. Viajar. Refazer as rotas. E era isso que  estava fazendo, mesmo ele ainda tomando grande parte do meu cérebro. Talvez por culpa. Talvez por costume. Mas eu estava bem. É pior quando toma conta do coração. “- Classe econômica, é claro”, eu disse. Jornalismo não tava rendendo tanto quanto imaginava, mas tudo bem. É a profissão que escolhi e sinceramente, até gosto de calcular os gastos no final do mês se em troca tenho uma coluna só minha no jornal tradicional da cidade.

O vôo ainda não havia sido anunciado e fiquei ali mesmo, observando a vida que eu criava para aquelas pessoas imaginárias que rodeavam o aeroporto. Sempre gostei disso. Ele me criticava, é claro: “- Não imagine um mundo assim tão profundo. A verdade é que a vida é prática” me dizia isso o tempo inteiro. Ele estava errado, eu sei.

Do meu lado esquerdo, uma senhora que provavelmente iria visitar as filhas. Mas no meu mundo, ela estava indo atrás do cara que se apaixonou quando tinha 15 anos. “Ele vai estar casado, senhora. Vai ter filhos, mas aposto que pensou em você durante esses anos todos” pensei baixo.

Mais a frente, marido e mulher. Poderiam muito bem estar indo pra lua de mel perfeita, mas pelo modo que ele não segurava as mãos dela e do jeito que ela desviava o olhar quando ele a encarava. Aquela seria uma viagem de reconciliação, ou a última, se me permite dizer. Você teria me repreendido e feito conversar sobre a sua avó que tem artrite. E essa sua mania de me prender em mim mesma que me fez querer ir. Só pra constar.

“-Bom dia moça, esse lugar tá reservado?” Disse o rapaz simpático de camiseta vermelha. “-Não. Pode sentar”, eu respondi. Mas no fundo, o que eu vi quando olhei os olhos dele, me deu vontade de dizer que sim, tava reservado. Pra outro alguém (…) “-Viajando a trabalho?” Mais uma pergunta interessante do companheiro de poltrona. “-Sim”, dependendo do ponto de vista.

Afinal, estava indo a trabalho não é mesmo? Entender a si mesma, é um trabalho, e um dos mais árduos, espero poder acrescentar. Ele riu. Tive vontade de fotografar e colocar em um quadro na parede do meu quarto. Olhe só pra mim, uma velha de 24 anos que viu o amor na primeira olhada. Novamente. “-Nossas poltronas são próximas.” Ele observou, e eu sorri com isso mais do que sorri quando você disse que me amava. Mas bem, o você agora não é você. É ele.

A aeromoça com sotaque paulista anunciou nosso vôo, e você gentilmente me perguntou se já podíamos ir. “-Sim, por favor” eu respondi. E sim, podíamos mesmo. Podíamos ir. Você poderia me mostrar seu álbum de fotografias no celular e lugares onde sente cócegas. Já eu poderia te mostrar aquelas anotações que faço durante a madrugada, com minha caligrafia nada compreensível. Ou talvez não. Talvez só iríamos. E cá entre nós, tem coisa melhor que isso?