Hora de Ser ir

O avião estava atrasado e enquanto não chegava, minha cabeça estava em algum lugar entre as últimas coisas que disse à ele e a mala desajeitada que fiz. Pode ter parecido rude da minha parte, mas nós dois sabíamos que tínhamos nos perdido em alguma parte do caminho. No final das contas, estávamos vagando sozinhos há algum tempo.

Quando a vida toma esse rumo, ou melhor troca o percurso, acredito que a gente deve fazer o mesmo. Viajar. Refazer as rotas. E era isso que  estava fazendo, mesmo ele ainda tomando grande parte do meu cérebro. Talvez por culpa. Talvez por costume. Mas eu estava bem. É pior quando toma conta do coração. “- Classe econômica, é claro”, eu disse. Jornalismo não tava rendendo tanto quanto imaginava, mas tudo bem. É a profissão que escolhi e sinceramente, até gosto de calcular os gastos no final do mês se em troca tenho uma coluna só minha no jornal tradicional da cidade.

O vôo ainda não havia sido anunciado e fiquei ali mesmo, observando a vida que eu criava para aquelas pessoas imaginárias que rodeavam o aeroporto. Sempre gostei disso. Ele me criticava, é claro: “- Não imagine um mundo assim tão profundo. A verdade é que a vida é prática” me dizia isso o tempo inteiro. Ele estava errado, eu sei.

Do meu lado esquerdo, uma senhora que provavelmente iria visitar as filhas. Mas no meu mundo, ela estava indo atrás do cara que se apaixonou quando tinha 15 anos. “Ele vai estar casado, senhora. Vai ter filhos, mas aposto que pensou em você durante esses anos todos” pensei baixo.

Mais a frente, marido e mulher. Poderiam muito bem estar indo pra lua de mel perfeita, mas pelo modo que ele não segurava as mãos dela e do jeito que ela desviava o olhar quando ele a encarava. Aquela seria uma viagem de reconciliação, ou a última, se me permite dizer. Você teria me repreendido e feito conversar sobre a sua avó que tem artrite. E essa sua mania de me prender em mim mesma que me fez querer ir. Só pra constar.

“-Bom dia moça, esse lugar tá reservado?” Disse o rapaz simpático de camiseta vermelha. “-Não. Pode sentar”, eu respondi. Mas no fundo, o que eu vi quando olhei os olhos dele, me deu vontade de dizer que sim, tava reservado. Pra outro alguém (…) “-Viajando a trabalho?” Mais uma pergunta interessante do companheiro de poltrona. “-Sim”, dependendo do ponto de vista.

Afinal, estava indo a trabalho não é mesmo? Entender a si mesma, é um trabalho, e um dos mais árduos, espero poder acrescentar. Ele riu. Tive vontade de fotografar e colocar em um quadro na parede do meu quarto. Olhe só pra mim, uma velha de 24 anos que viu o amor na primeira olhada. Novamente. “-Nossas poltronas são próximas.” Ele observou, e eu sorri com isso mais do que sorri quando você disse que me amava. Mas bem, o você agora não é você. É ele.

A aeromoça com sotaque paulista anunciou nosso vôo, e você gentilmente me perguntou se já podíamos ir. “-Sim, por favor” eu respondi. E sim, podíamos mesmo. Podíamos ir. Você poderia me mostrar seu álbum de fotografias no celular e lugares onde sente cócegas. Já eu poderia te mostrar aquelas anotações que faço durante a madrugada, com minha caligrafia nada compreensível. Ou talvez não. Talvez só iríamos. E cá entre nós, tem coisa melhor que isso?

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